
P.S., a 23/02/09: Não sei se esta postura [portaria] municipal existiu ou não. Que importa! Outrossim, gostei de ver as reacções, mormente aqui e aqui, e os comentários. Que mais me proponho? A leitura de 2 textos e de duas posições. Eça de Queirós e Alfred Döblin. Para reflectir. Hão-de servir para mais alguma coisa os blogues, chiça!
Pronto, depois podemos todos ir brincar ao Carnaval. Ou não. Ninguém leva a mal.
1 – Eça de Queirós: «No folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher.
Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!) — e que na arte não entra realidade, justiça ou moral pública porque (acrescenta) a arte nada tem com os direitos civis. Colocado assim à larga, na anarquia da voluptuosidade e do lirismo, aí está o que o poeta expõe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de 20.000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura!
Começa por dizer:
— Que é bom amar no campo, à tarde e a sós!
Depois continua:
— Que prefere o campo, porque nas salas do mundo não lhe é dado beijar a mão dela às largas! Que o campo é livre e as sombras dão refúgio!…
Por fim acrescenta:
— Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele só com ela, erguidos em êxtase, longe de quanto é vil…
(Quanto é vil, na gíria da poesia lírica, é o mundo real, a família, o trabalho, as ocupações domésticas, etc.).
Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas.
Aquelas bastam para legitimar as seguintes observações:
Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa;
Nenhum homem que as escrevesse ousaria lê-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer palavras;
Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria citá-las.
Como se consente então a sua publicação em verso? A higiene não é só a regularização salutar das condições da vida física; nela devem também entrar os factos da moralidade. Se é proibido que um monturo imundo ou um cão morto corrompam o ar respirável das ruas — porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranquilidade virgem?
Há uma postura da Câmara que impõe uma multa a quem pronuncia palavras desonestas: porque não há-de ser igualmente proibido publicar ideias desonestas?
Um ébrio, um pobre homem a quem se não deu educação, a quem se não pode dar leitura, a quem quase se não dá trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de três ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 réis. Um poeta lírico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num jornal de cinquenta mil leitores em letra impressa, permanente e indelével, uma série de desonestidades, e é apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma candidatura!
Pedimos pois:
Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades;
Ou que a multa da Câmara Municipal seja aplicada a todos — e que tanto o ébrio que não sabe o que diz à esquina de uma rua, como o poeta lírico que escreve, com reflexão e rascunho duma semana, ao canto dum jornal, paguem os 3$000 réis à Câmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.»
2 – Alfred Döblin: «A opinião de algumas pessoas nos nossos dias é do seguinte teor: a ideologia na obra de arte é inatacável; no momento em que esteja absolutamente fora de dúvida que a obra de agitação é uma obra de arte, não há o direito de a proibir seja de que modo for. Pois a arte é intocável, a arte é sagrada. / Eu não sou dessa opinião. Na luta política em que também se usam imagens e textos, é sem dúvida uma esperteza, uma sabidice, e muito oportuno convencer o adversário de que essas imagens e esses textos são obras de arte, dando-lhe xeque-mate com a afirmação, vagamente presente desde os tempos escolares na sua pobre cabeça, de que a arte é sagrada e de que o sagrado não se pode naturalmente castigar. A arte, porém, não é sagrada, e é lícito proibir obras de arte. É uma ofensa à arte dizer deste modo que ela é sagrada, e tornar inoperantes as obras de arte, afirmando que o estado não lhes pode fazer nada. / O artista é uma pessoa viva, membro de um estado, de um povo, de uma classe, e tem o direito de exigir que as suas opiniões – moldadas em obras de arte e dotadas da especial força de propagação da arte – sejam tão tomadas a sério como as das outras pessoas. ‘A arte é sagrada’ praticamente não significa outra coisa do que: o artista é um idiota, deixem-no falar à vontade. Querem-nos conceder liberdade de produção, mas a liberdade que têm em vista é a do parágrafo 51. Só nos modernos estados liberais, entregues de alma e coração ao comércio, à banca e à indústira, ao capital e ao exército, podia surgir uma ironia destas: ‘A arte é livre’, quer dizer, é totalmente inofensiva, os senhores e as senhoras artistas podem escrever e pintar o que lhes apetecer…» in Kunst ist nicht frei, sondern wirksam: ars militans, trad. de Alberto Pimenta.
E se tiverem ainda muito interesse, todo o artigo de Alberto Pimenta, na Colóquio Letras, n.º 32 (Jul. 1976), «Liberdade e aceitabilidade da obra de arte literária».
A imagem, é claro, só podia ser de Federico Fellini.