«Camarades vous enculez les mouches»
Seria caricato associar Fernando Lemos à figura possidónia do timoneiro do jogging português, qual Catão a quem proíbem, nas suas festas de Flora, as habituais prostitutas nuas, mas mais trágico seria não deixar, pois qualquer vício é fonte de prazer para quem o tem, que Clódio não se sentisse confuso ante o seu erro.
Aqui fica registado para a posteridade mais um Momento Pathé de um «presidente do Conselho».
Imagem: Fernando Lemos, Auto-retrato
Utopias 2008 ou a Realidade Obsoleta - II
Ainda relativamente à nossa querida organização de ponta, há-de ter também uma Declaração de Missão. Um objectivo estratégico dos líderes relativamente às suas metas. Algo que foque - como agora gostam de sublinhar - a sua estratégia. O lema poderia ser, por exemplo: «Faça.» Não, esse já tem dono. Pertence à Nike. Que tal: «Soluções para um pequeno planeta.»? Também não. A IBM processá-los-ia.

Talvez este: «Excedemos sempre as expectativas dos nossos fregueses.»
Utopias 2008 ou a Realidade Obsoleta
Telefonica.mp3 - (o Hino que nos vem do País-Farol)
A gestão por objectivos - MBO - chega à ASAE com um atraso de 50 anos e estão todos mais «SMART»:
popularizada nas décadas de 60 e 70 do século passado por George Odiorne, partindo das ideias desenvolvidas por Peter Drucker na sua obra The Practice of Management, que depois a subestimou, ela é hoje completamente ignorada pelos gurus de «la grande abbuffata».

«O Plano Teleológico»
Mais um Momento Pathé de Pinto de Sousa: diz que quem não aceita «o homem novo» é destemperado. Sine ira et studio, senhor, dizia Tácito.
A «Grande Mudança» vai sendo metodicamente posta em execução pelos politotdely . Liquidem-se, pois, os kulaks, com 124 infracções, por inspector, 61 processos de contra-ordenação, 8 processos-crime, fecho ou suspensão de pelo menos 6 estabelecimentos e detenção, mínima, de 6 pessoas.
Imagem: Derrotem os kulaks
«Eu não gosto de blogs»
À consideração de…
João Camilo publicou, em 28 de Novembro de 2004, este apontamento, que transcrevo com a devida vénia.
Eu não gosto de blogs. Acho-os perigosos. Eles ameaçam a reputação dos escritores que publicam livros; põem em perigo o emprego dos jornalistas que nos dão abalizadamente todos os dias lições de moral, de política, de sociologia e de futebol; fazem cair no ridículo os políticos vaidosos e arrogantes que nos mentem e catequizam obsessiva e descaradamente na televisão e na rádio. Em resumo: são um factor de desestabilização permanente para a sociedade em que vivemos e que já nos deu tantas coisas boas.
Até ao surgir dos blogs reinava nas nossas existências uma impunidade quase exemplar e relativamente tranquilizadora. Hoje o risco de nos sentirmos vigiados, ultrapassados, acusados, fotografados, denunciados, desmascarados, injustamente vencidos e humilhados, é constante. Os escritores já foram donos absolutos da escrita, os jornalistas donos da verdade, os políticos donos do país e das instituições. Ainda é assim em grande parte, ao que parece. Mas as coisas estão a mudar. Perigosamente. Cumpre-se a profecia: a democratização da educação deu os seus frutos; e hoje somos todos artistas e escritores, comentadores políticos e desportivos. Hoje qualquer pessoa pode escrever um poema, um romance, um conto, uma crónica de jornal usando de técnicas e um saber que antes só eram acessíveis a uma minoria. E o poder vai finalmente em breve estar ao alcance de todos nós. E não serão o Bush com os seus aviões de lata, o Blair sem vergonha na cara, o Santaninha com os seus olhinhos cansados de coruja que poderão alguma coisa contra a chegada da nova ordem.
Mas estaremos realmente a aceder enfim desta maneira, com muita blindness e pouco insight, à sociedade mais justa e perfeita a que aspiraram, com insuficiente sucesso, os revolucionários do passado? Podemos de facto começar a sonhar sem receio de desilusão com uma sociedade onde reinará a verdade e a justiça? Ou devemos, pelo contrário, temer os efeitos nefastos de uma nova e poderosíssima demagogia? Ou escondem-se a mesma ou outras ditaduras, a mesma ou outra miséria e exploração das classes oprimidas (física e intelectualmente) por detrás destas aparentes promessas de mudança? Eles resistem, os antigos senhores do mundo, os nossos abnegados protectores ancestrais. E pelo que vou vendo e lendo dir-se-ia que têm os dias contados. Mas nunca se sabe e a História e a experiência aconselham prudência.
(No meio destas inquietações perguntei-me: os novos senhores serão tão diferentes dos antigos? Alguma coisa mudou ou está a mudar realmente - ou só mudaram o estilo e a técnica da eterníssima, e no fundo desculpável porque humaníssima, luta pelo poder? Questão a investigar, sem dúvida.)
Qualquer bloguista tem hoje teoricamente tantas oportunidades de envenenar o ar à nossa volta, de lançar descrédito, de construir e destruir reputações, como os cronistas mais populares da imprensa e da rádio, como os comentadores menos escrupulosos e competentes da televisão, como os fabulosos maîtres-à-penser que orientaram e dominaram, do alto da sua condição intelectual (ou política ou económica ou artística) superior, durante tantos séculos, as nossas existências. A situação revela-se preocupante, alguma coisa mudou e está a mudar. As nossas vidas arriscam-se a sofrer modificações catastróficas. Desde o fim do Antigo Regime que não se assistia à possibilidade de tão profunda revolução dos nossos costumes e direitos e obrigações.
Jovens inteligentes das novas gerações entenderam a nova condição muito depressa e ocupam já no imaginário colectivo e na bolsa dos valores mediática lugares de prestígio que noutras circunstâncias lhes teriam levado muito mais tempo a conquistar. Aqueles que mais facilmente souberam beneficiar da nova ordem para se promoverem mutuamente e vir a ser escutados na rádio, lidos nos jornais, eventualmente temidos nas editoras e nos ministérios, não se distinguirão muito, bem feitos os balanços, daqueles que substituíram, ou com quem ainda convivem, nas redacções dos periódicos, das estações de rádio e de televisão, nos gabinetes ministeriais. Posso estar errado, mas é uma opinião que me permite pensar que estes novos «quadros» me parecem menos susceptíveis de pôr em perigo a nossa tranquilidade individual ou social, a calma rotina dos nossos dias, do que inicialmente se anunciava ou previa. É certo que eles usaram inteligentemente na luta por um lugar ao sol de novos métodos e novas técnicas para se promoverem. Mas lá no fundo, passados os primeiros momentos de fulgor, alcançada a fácil e rápida vitória, começaram logo a submeter-se, a ficar com barriga, a armar em vedetas, a falar da sua vida privada como se ela fosse interessante dois metros para além deles. Contentaram-se com o pouco que obtiveram, revelaram-se e vão-se revelando em cada dia que passa tão inofensivos e monótonos e insuportáveis como muitos outros que antes deles ocuparam os lugares cobiçados. E tão pouco capazes de nos surpreendeer ou seduzir ou irritar como esses antepassados a quem sucederam. Uma vez no poleiro, adoptaram os tiques, vaidades balofas e manias ridículas daqueles que venceram ou que ainda não eliminaram na sua subida vertiginosa até ao sucesso. E por isso a sociedade não tem a recear da parte deles, pelo menos por ora, inspiração ou alento para revoluções ou tremores de terra sangrentos. Mais tarde ou mais cedo hão-de ser reconhecidos pelo que são e já eram: poetas medianos, críticos literários sem formação séria, comentadores políticos ou desportivos boémios e superficiais, frequentadores dos bares, discotecas e cafés na moda, diletantes apesar de tão prematuramente terem dado sinais de ambição desmedida e projectos nervosos. Não são esses que eu receio, não é desses que temos a temer a ruína das instituições e dos costumes. Esses são apenas uma espécie de versão «mais culta» ou «mais chique» do Big Brother.
Não, os perigosos são os outros. Os que de facto não querem o poder, o prestígio ou o dinheiro, mas apenas o direito de criticar, denunciar, fazer cair no ridículo ou obrigar a explicar-se em público, pelas suas decisões ou palavras, os detentores tradicionais e modernos do poder e do prestígio. Aqueles a quem não envaidece, aparentemente, pensar e imaginar e escrever melhor do que os escritores publicados e conhecidos. Aqueles que repetidamente dão mostras de uma criatividade e imaginação que tornam pálidas as realizações de gente com nome, direito a citações permanentes na imprensa, bons salários. Aqueles a quem não repugna protestar e ridicularizar as decisões e comportamentos alheios. Toda essa alegre gente, mais ou menos anónima, demasiado atenta e excessivamente viva, parecer ter como única ambição desconstruir, desmontar até aos limites do pensável os mecanismos da ordem tão bem organizada que nos tem regido e nos vai regendo e nos tem permitido ser tão felizes. Sem pudor nem timidez, sem ambição política ou intelectual ou artística assumida, obrigam-nos a reflectir, incitam-nos a duvidar e a rever o que acreditávamos ou pensávamos que sabíamos. E nós interrogamo-nos, ficamos quase em pânico às vezes, pomos em causa bruscamente, à hora da cerveja ou do pequeno-almoço, muitas ideias e hábitos antigos, que até nos pareciam «naturais» e talvez inofensivos. E obrigam-nos a isso todos os dias. E por causa deles nunca sabemos realmente o que nos reserva o dia de amanhã, se o amor de facto existe, se os impostos serão um dia objecto de reforma a nosso favor, se o livro incensado por alguns eternos aspirantes a críticos literários de jornal vale alguma coisa. Não, não queremos deixar-nos enganar, não queremos que nos tomem por parvos. Quem sabe, nestas circunstâncias, e com tantos pontos de vista e opiniões a circular por aí, onde vamos acabar e que vida vai ser a dos nossos filhos e netos? A incerteza sobre o futuro instalou-se, por vezes temos a impressão de ter voltado à época gloriosa, excitante e terrível, das grandes ameaças de catástrofe (revolução francesa, revolução russa, revolução cubana, che guevara, maio de 68, revolução chilena, etc., etc.). Pode haver quem veja nestes sinais o anúncio claro de um futuro mais brilhante para a humanidade. Mas eu acho tudo isto muito perigoso e comecei a prestar uma atenção preocupada aos cronistas e escribas sem estatuto claro dos mil blogs cujo projecto secreto parece ser introduzir nas nossas existências, com nítida, juvenil e subversiva intenção de as perturbar, informações, uma ciência e pontos de vista até aqui mais ou menos recalcados ou deixados cautelosamente na sombra. Johaan Gutenberg ao lado disto que fez? Nada.
Leitor, se me leres, não te peço que acredites em tudo o que te digo. Mas olha à tua volta, vê com os teus olhos, toma consciência do que se está a passar. Não desvalorizes levianamente as modificações que já anotaste no comportamento dos teus pais, ou filhos, ou parceiro/a amoroso/a. Se descobrires sinais, sintomas da mudança, reflecte duas vezes antes de ires para o emprego ou ao cinema. E não tentes contradizer-me pedindo-me para te explicar por que razão, se as coisas são como eu anuncio, os políticos continuam a mentir-nos impunemente, os primeiros ministros a governar abusiva e incompetentemente o que nos resta de país, os escritores banais a ser homenageados e premiados, os árbitros de futebol a prejudicar o Sporting, o senhor Presidente da República a manter à beira do abismo uma serenidade muito british e muito democrática. Tudo isso ou pelo menos uma parte disso há-de mudar um dia e os blogues, tenho a certeza, em vez de ameaçarem irresponsavelmente a nossa paz e a rotina dos nossos dias, hão-se vir a ser os grandes, os heróicos responsáveis por essa transformação dos costumes. Basta esperar um pouco, dar tempo ao tempo. Eu esperarei (até morrer, se necessário).
Imagem: Toulouse Lautrec
«The sanctimonious prat»
Starving Is Good
Dois ou três apontamentos:
1 - Subscrevo o Rui Bebiano em 95% (os outros 5% ficam de reserva para uma ironia que não sei se percebi, mas enfim, Angola é Nossa e pretos são isso mesmo, pretos; 2 - Dois milhões de pobres em Portugal, um quinto da população, são de louvar como uma bela medida malthusiana. 3 - O crime sempre teve muitas vertentes, não é verdade?
Imagem: Hugh Macleod
Angolê - II
«Repositório de coisas angolenses»
Então a maka desceu no quintal. Se não percebes, mete explicador, dizia mamãe.
Avançou o moço dos Patriotas e disse de seu jeito:
«[...] Tenho profunda admiração por Agualusa.]
Chegaram na frente os engajadores e opinaram:
Engajado 1: «A tradição literária angolana e o grau zero da memória de um escritor.»
Engajado 2: «Réplica a “Dissidência poética ou poética da dissidência. O seu a seu dono.»
Foi coisa de muita alegria para o moço José. Podia-se ter passado da poesia política à política da poesia, mas entrou a moça genetteana no estrado e teorizou:
«Conhecer muitos mundos não significa apanhar o avião e viajar dez horas, significa ler muito.»
Logo se pôs a saltitar entre matter e manner, dando a deixa à intelligentsia suma:
«Agostinho Neto não é um poeta medíocre.»
É, todos têm seu jeito de contar nossas coisas com seus calcanhares.
Imagem: estatueta Chokwe
Angolê - I
«Repositório de coisas angolenses»
Os tchirikwata ou pássaros canórios (para que se percebam melhor as “variedades”):

I - José, que gosta de tocar de assobio, entoou:
«Um escriba interessado pelo absurdo»
II - Artur, com um apito da tropa, estragou a música:
Imagem: Ana Sousa Santos, S/título
«Our kind of people»
Verdade / Ficção

«Why don’t people like to tell the truth?
I think I know the answer: it is besause truth is less strange than fiction, and there is a charm in strangeness or surprrise [...] Truth, we are told, is stranger than fiction.», Willard Van Orman Quine, An Intermittently Philosophical Dictionary
Não vejo «pensador-engraçadista», na expressão de Pacheco Pereira, mais «pensador-engraçadista» do que ele próprio. Veja-se o caso das suas profundas reflexões filosóficas sobre si mesmo ou sobre o artefacto telemóvel. Mas os seus suspiros cheios de espiritismo intelectófobo, no dizer de A. Sérgio, enchem até à náusea os media.
«I think a frequent cause of overstatement is diffidence: wondering whether what one is about to say is worth hearing. So one embellishes it a bit, not quite deliberately. If the message is relayed, embellishment is subject to iteration; and the message becomes the more worth relaying as the embellishment proceeds. A tacit, tentative reservation of the full belief is the part of the prudent listener.», Willard Van Orman Quine, An Intermittently Philosophical Dictionary
No que é acompanhado por outros cantadores de missas como, p.e., o vigário Pu[o]lido Valente, ou o heclesiasta António Barreto. Este último, a propósito da «apócrifa» publicada em Holocausto em Angola, por si amplificada, pede desculpa. Não explica a aleivosia. Pede desculpa. E está explicado. O príncipe dos acólitos, P. Pereira, desculpou-o. Caso encerrado.
Com um jeitinho de língua, têm sempre razão. «Pensadores-engraçadistas» são os outros.
Desculpa lá, pá, ó X, mas escuso-me de ligações para blogues. Não sou publicista.
Imagem: Bill Owens, from the series Our Kind of People, «A lot of people say we’re chunks of meat, like cattle, but we’re not. We’re all individuals with dreams and aspirations like everybody else. Being a beauty contestant has taught me about myself, other people, poise, and public speaking. If I had to do it over again, I would.»
… en faisant don de sa grace.
A gravação, o Lamento della Ninfa, de Monteverdi, não é a melhor, mas a voz da Maria João Sousa incandesce a dor que nos dilacera na canção cruel.
De Abril em três fragmentos
Primeiro:
[Nas cartas a Lucílio, Séneca mostra como o homem, mergulhado num turbilhão de eternos perigos, não vê os sinais do desastre; ao contrário da natureza, que com a trovoada anuncia a tempestade, ou o fumo o incêndio, a maldade humana chega sempre mascarada para desabar no imprevisto.]

- Olha, já que falas disso: acordara bem disposto. Ao ouvir as primeiras notícias, a inquietação instalou-se. Lembrei-me, enquanto ia vagueando pelo quarto, do sermão de Bartolomeu Guerreiro, que dizia qualquer coisa assim: “Não posso negar a dúvida causada pelo sentimento e a dor de não encontrar em Lisboa aqueles velhos reis que te fizeram poderosa…”
Engolido o café à pressa, dirigi-me ao posto. Do comando, nada. Saí para a rua. Sorvi o ar fresco, contemplei o céu sereno e, a medo, pensei: “Acabou-se o fardo. Não, a notícia não há-de ser apenas uma ficção.” Assim se confirmou, algumas horas depois.
A alegria invadira-me. Mas que me esperava naquela estação da história? Ainda não me desenganara a terra nem as gentes. E chegou a primeira mensagem: entrávamos de prevenção. E devíamos tomar posições. “Com cinco homens!”, sorri interiormente. E vigiar atentamente o aeródromo.
- Mas porquê? - interrompo.
- Olha, porque esperávamos alguma aeronave ou talvez os “terroristas” estivessem por ali para tomar a pista e atacar algo que dela se aproximasse. Claro, tudo isto eram conjecturas irracionais, porque alguém que se aproximasse nunca iria de avião.
Chegou, então, o Malaquias, do posto de S. Lucas, lembras-te? Fora para dar conhecimento ao Administrador do Concelho do que ele já sabia… mas sabes bem como eram estas coisas… E dizia que uns comunistas se tinham instalado na metrópole, ele nem dizia bem comunistas, brincava com a palavra entre o carteiristas e o comunistas. E o meu contentamento crescia.
À noite, nova mensagem rádio: que nos apresentássemos no comando no dia seguinte para receber instruções… (choro convulsivo).
- Podemos ficar por aqui, hoje.
- Da inquietação e da dúvida passei à alegria. Mas em pouco tempo foi o descalabro, sim. Não oferecer resistência. Dar tudo. Sem negociar. E por fim, fugir… (longo silêncio.)
Recordas-te de quando saímos e, já ao cair da noite, entrámos na primeira aldeia e nos mandaram parar num posto de controlo? Não tinha visto os sinais de paragem feitos pelos da Unita… deram-me uma rajada de tiros por cima do carro… e logo a seguir parámos num outro controlo, à saída dessa povoação. Ao abordarem-me, começaram a dizer que eu ia a fugir e que aquela gaiola de galinhas e coelhos que levava no tejadilho - arranjada à pressa pela tua mãe - eram roubadas. Não me agrediram porque a mão saiu logo do carro com uns maços de cigarros e distribuí-os. Foi então que se acalmaram, mas sempre me iam dizendo que eu já não era chefe nem nada e que me fosse embora, mas que duvidavam muito que no puto me quisessem. Não, não quero mais falar, mas de tudo isto deves lembrar-te.
- É de ti que falamos - riposto. - E o meu padrinho?
- Falei com ele e, claro, aconselhou-me a pôr o dinheiro fora do país, mas isso era uma miragem porque logo cortaram todas as transferências bancárias para o exterior. Como sabes, passado pouco tempo da revolução, logo se começou a falar na saída dos brancos de Angola, foi criada uma organização para o regresso, incluindo um quadro geral de adidos para os funcionários públicos. Perguntaram-me se queria ficar, que manteria o lugar que então ocupava. Eu fui um dos que quis ficar.
- E a tua posição?
- Não era coisa que muito me importunasse. Queria a minha terra independente.
- Não sabia que assim pensavas.
- Nem a ti me atrevia a confessá-lo. Mas ainda quanto à saída, cancelaram-nos até as férias e eu pedi a minha graciosa para vir a Portugal no intuito de pôr a família em segurança. Nem isso me autorizaram. Uma coisa aprendi. Fugir também é humano. Não o sabia. Acabamos?
- Está bem. Se assim o queres. Um abraço.
Segundo:
«A dissimulação é um leve véu tecido de honrosas trevas…», Acetto
Como se explica Ípias, que os antigos sábios
todos se tenham afastado dos negócios públicos?

perguntei, porque também eu calei
a minha voz pública de outrora. Cidade,
perdoa-me a ausência e o rancor,
perdoa que a minha voz agora
não nomeie os teus cais de embarque,
a dor, a miséria e cúpida opressão.
Ainda amo, neste exílio de paz a mesma Paz.
Sábia, não sou. Calei-me porque
as memórias minhas e a voz sozinha
também pertencem ao Todo, em harmonia.
Ainda amo a pátria, feita de lugares, parentes,
dos próximos, e do vento, meu semelhante.
Como se explica Ípias…, Fiama Pais Hasse Brandão
Terceiro:
«Ce n’est plus la présence de dieu
c’est l’absence de dieu
que rassurre l’homme…»
Tiens, Homère
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Imagens: anónimo, Aquiles; John Vassos, Dromophobia
Directo ao Coração - XIII
O PROBLEMA DOS PARTIDOS PORTUGUESES: «Les gens incultes se reconnaissent à ce qu’ils mettent trop d’éclat en toute chose.»
Imagem:Joe Shere, Jayne Mansfield and Sophia Loren at Romanoffs in Beverly Hills
Acordo Ortográfico - Fim
«No ensaio A perseguição e a arte de escrever (1952), o erudito judeu Leo Strauss afirma: “A literatura esotérica pressupõe que existem verdades fundamentais que nenhum homem honesto pode exprimir em público, porque elas causariam mal a muitos, que, por terem sido feridos, terão naturalmente tendência para, por sua vez, fazerem mal àquele que exprimiu essas verdades desagradáveis. Por outras palavras, ela pressupõe que nem a liberdade de investigação, nem a liberdade de publicar todos os resultados da investigação, são garantidos como direitos fundamentais. Esta literatura está, portanto, ligada a uma sociedade que não é liberal”2. Contudo, é talvez essa a razão - “existem verdades fundamentais que nenhum homem honesto pode exprimir em público” - por que, numa sociedade então a caminho de se tornar liberal, a derradeira frase que conclui o Leviatã de Thomas Hobbes dirá: “A verdade que não se opõe aos interesses ou ao prazer de ninguém é bem recebida por todos os homens“. [...] De acordo com Strauss, a experiência ensina que as crenças e as opiniões não devem ser tratadas de maneira ligeira. Elas devem ser consideradas não apenas do ponto de vista da verdade, mas também do ponto de vista dos seus efeitos.»
António Bento, «A arte de escrever» como resposta ao problema da censura…
Acordo Ortográfico - VIII
«A Ortografia numa Perspectiva Psicolinguística», por Maria da Graça Lisboa Castro | PDF (166 kb)
Terão «os autores do Acordo “favorecido” a escrita em detrimento da leitura», como afirma Maria Castro?
Acordo Ortográfico - VII
Algumas posições em confronto (a ordem é arbitrária):
Contra:
«A língua, o acordo e uma falsa unidade ditada pela política», Nuno Pacheco, jornal Público;
A favor:
«Acordo ortográfico de 1990 em 2007», D’ Silvas Filho, Soc. Língua Portuguesa, consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa;
Contra e a favor:
Conferência Internacional/Audição Parlamentar sobre “O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, Comissão de Ética, Sociedade e Cultura - Intervenções de Carlos Reis e Vasco Graça Moura, Canal Parlamento;
Contra:
«Partes de África» e «Acordo Ortográfico: II. O Resto», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias;
A favor:
«Acordo Ortográfico: Opositores têm “comportamentos autistas”», Carlos Reis, Diário Digital;
Contra:
Vários, Desidério Murcho, De Rerum Natura, com o mérito excelentíssimo de publicar coisas como, p.e., este Glossário Inglês-Português, etiquetas Língua e Política;
A favor, com a originalidade de ser uma petição:
«Petição à Assembleia da República em Prol de uma Mais Rápida Implementação do Acordo Ortográfico», Paulo Borges, do Movimento Internacional Lusófono em associação com a Nova Águia e que pugnam por «coisas» como o Quinto Império;
Um Nim:
«O desacordo ortográfico e a literatura», Sérgio Rodrigues, Todoprosa;
E, por fim, dois poemas:
Um coxo (Vasco Graça Moura) e outro chocho (Nuno Júdice; as saudades que eu tenho, Nuno, de ler os comentários das moçoilas no seu blogue!).
PS - É evidente que há ainda o Agualusa e outros artistas de variedades, mas para isso vou ao circo.
Imagem: Sol, è per questo il mondo in armi e in fuoco, gravura a água-forte de Giuseppe Maria Mitelli, 1691
Acordo Ortográfico - VI
Será piada, mas contaram-me que o ministro da Cultura do Brasil, GG, terá, em entrevista a um tal radiotelevisivo de Malato, comentado relativamente ao Acordo Ortográfico: «Que interessa se é Antônio ou António? Importante é o AFE(C)TO.» Só lhe perdoo porque a Academia Brasileira de Letras me poupa alguns trabalhos.
Acordo Ortográfico - V
Mais um defensor acérrimo do Acordo Ortográfico que desortografa. Ali abaixo (e não vi ninguém protestar, mesmo tendo eu indicado a ligação como boa), onde remeto para o referido texto, pode ler-se, designadamente este DESACORDO: «6º) Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente.
Exemplo: Anvers, substituíndo por Antuérpia; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève,
por Genebra; Justland, por Jutlândia; Milano, por Milão; München, por Muniche; Torino, por Turim;
Zürich, por Zurique [...]» etc., acrescento eu.
E redobrado DESACORDO no Portal da Língua Portuguesa. Quem nos salvará do desacerto! Talvez este aerograma.
E não comprem aquela «coisa» da Texto Editores à venda em todas as estações dos C.T.T., o novo acordo ortográfico, da autoria de Pedro Dinis Correia e João Malaca Casteleiro. É deitar dinheiro à rua.
Acordo Ortográfico - IV
Entre no sítio e verifique. Onde está o relevante contributo da Academia das Ciências de Lisboa para a «defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional»? Esperamos por mais um «Dicionário Verbo»? Durante quantos anos? Com que custos? A que preço?
Momentos Pathé - XVI
A Revolta dos Generais
«[...] Garcia Leandro coloca, porém, a hipótese de a proposta não ir para a frente e, no mesmo tom crítico levanta a possibilidade de se tratar de um sinal condicionador que o governo quer dar, “uma operação de dissuasão”, ao bom estilo militar, o que faria deste governo um às [sic] em estratégia de guerra. [...]»

Imagem: Sans-Culottes transportando um modelo da Bastilha
Acordo Ortográfico - III
Prosseguindo com os meus modestos rascunhos sobre o Acordo Ortográfico, lembrei-me destas querelas / rifarias, publicadas no Diário de Notícias de 26 e 27/04/2006, entre José Pina Martins, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, e o prof. Malaca Casteleiro, que nunca vi, ignorância minha porventura, aclarada. Haja alguém que me elucide.
Publicara, a propósito, este apontamento aqui, pois acabara de comprar a obra «África Negra-História e Civilizações», de Elikia M’Bokolo e deparar-me com esta declaração por parte dos responsáveis pela edição da obra: «Acrescente-se uma observação técnica: fomos obrigadas a manter em francês muitos termos geográficos, assim como alguns etnónimos, por não dispormos de regras capazes de permitir a sua portugalização, sempre que esta podia ser útil, e às vezes mesmo indispensável. Se o Dicionário de José Pedro Machado nos foi, apesar das suas imensas lacunas, deveras útil, já o recentíssimo Dicionário da Academia, ou assim chamado, se revelou muito desapontador.»
Directo ao coração - XII
Recebido com «hinos e tiros de canhão…»
A quem interessar o Apocalipse de Daniel, que em hebraico quer dizer «o meu juiz é Deus», pode ver aqui L´Ossservatore Romano, uma interessante mostra de colagens sobre o diário do Vaticano em que o artista argentino, Leon Ferrari, substitui os textos das suas páginas por diversas imagens que ilustram esses títulos, como este:

Imagem: Leon Ferrari, La civilizacion occidental y cristiana
Momentos Pathé - XV
«Formoso espectáculo de um país próspero!», O Conde d’Abranhos, Eça de Queirós
Morre o “cónego-bomba” e que têm eles a dizer? Tudo parece um bom-bocado: açúcar, gemas de ovos, coco ou amêndoas… Depois de monsenhor, medalhado por mérito por S. Exª o Presidente da República, das «honrosas dívidas de gratidão», só falta a estátua. Venha ela, pois.

Só me ocorre O Conde d’Abranhos para este país sem vergonha, pior, sem memória, com as suas rábulas:
«Quantas vezes me disse o Conde ser este o segredo das Democracias Constitucionais: “Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a Soberania ao povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito… E quanto ao seu proveito… adeus, ó compadre!
Ponho-lhe na mão uma espada; e ele, baboso, diz: eu sou a Força! Coloco-lhe no regaço uma bolsa, e ele, inchado, afirma: eu sou a Fazenda! Ponho-lhe diante do nariz um livro, e ele exclama, de papo: eu sou a Lei! Idiota! Não vê que por trás dele, sou eu, astuto manejador de títeres, quem move os cordéis que prendem a Espada, a Bolsa e o Livro!»
Acordo Ortográfico - II
Para P.
Desculpará, caro leitor, a interrupção, mas voltam a escrever-me, desta vez pedindo-me que declare publicamente eventuais interesses no assunto. Este, enredado em laços e enlaces, está a deixar-me à beira de um ataque de sarna. No entretanto, para que conste, pois então:
Minha pátria não é a língua portuguesa nem qualquer lágrima literária
«A minha pátria é entre o Dia e o Sonho», R. M. Rilke

Infância, território do meu país. Osmose de um sentido sem fronteiras, essência de acasos, liturgia da visão obscura, fluidez atmosférica, móbil de uma qualquer pergunta sem resposta.
A minha infância não tem bandeiras, marchas ou hinos heróicos; tão-pouco castelos ou sacro-impérios. O seu ritual é sibilino como o voo da solitária águia ou o veado que a sede apaga na imagem da elegância.
Infância, nação dos balbúcios, cidadã do grito xamânico vasculhando as poderosas origens. Dela me debruço, por sob o seu mineral brilho, efémero como um gesto.
Oh! mímica do silêncio instalado sonhado ultrapassar-se.
Minha pátria não é a língua portuguesa nem qualquer lágrima literária: é vida tremendo por fazer-se.
Imagem: Miradouro da Lua, Luanda
Fides V
A nova Religião também tem os seus ritos simbólicos:
III - B) A Educação
«Renaissance Man is dead. Education should be about training in subjects that will boost the economy.»
A Empregabilidade e as Humanidades. Ora, toda a gente sabe, i.e., «os grandes cérebros», que essa coisa caduca serve apenas para senhoras reformadas, pedreiros com aspirações a erguer estádios de futebol, adolescentes tontinhos e para mostrar em blogues.

Para que hão-de servir as cabeças se não para pôr o chapéu? Ora veja-se aqui:
Agora and The Guardian present:
rethink
-education in the 21st century-
Imagem: Giuseppe Maria Mitelli, Mascherina
Momentos Pathé - XIV
O velho sophos torna-se profissional da linguagem. Começará aqui um «preço da verdade»?
O «Holocausto em Angola» e a mancha sociológica no olhar do António no Público de 13/4/08.
Imagem: Jemima Stehli, Strip No. 6, Critic
«”The world knows only one window on Zimbabwe…»

Imagem: Elizabeth Muwungani, Hairstyles & Conversations




















