Crônica
A poesia move o mundo. Seja pela leveza que oferece, ou pelo peso de conhecer o mundo em suas entranhas, em seus desmazelos. A poesia amacia as quinas da vida. Ainda doem as topadas, mas há um certo riso, um aliviamento da dor frente aos infortúnios. Há sempre aquela saída de emergência que o poema pode oferecer. E todos oferecem. Daquele poema amador, feito às pressas na mesa de bar, ou porque a professora pediu, ou porque a paixão veio e para expressá-la se fez necessário o uso de versos prontos, até os poemas que mudaram a história, estabeleceram-se como paradigmas. Em essência são iguais: feitos de palavras, verdades, invenções, uma miscigenação entre pensamento e imaginação. Tiveram alcances, objetivos diversos, é certo, mas a poesia guarda a todos: da grande epopéia transformadora de uma sociedade ao humilde rascunho que jaz dentro das gavetas dos poetas anônimos.
A poesia preserva estas palavras, dando-lhes aura e mistério. Se alguns poemas não cumprem a função artística, literária, se não conseguem impor-se como objetos de fruição estética, serviram ao propósito individual, à vontade irrefutável e inalienável do humano em poetizar sua vida. Apesar das muitas tentativas de eliminar este direito dos indivíduos, de fazer com que se desacostumem da poesia, ela ainda brota clara, palpável, viva dentro de muitos. Afinal, tudo se dá pela palavra. Tudo se materializa por este frêmito feito de som e beleza. Por mais força que a imagem tenha neste mundo de agora, por mais que o visual determine o caminho, a palavra ainda nos assegura, nos identifica, personifica nossa vida.
A palavra é a impressão digital do humano. O poema é o cerne da palavra. O momento máximo de concentração e eletricidade que a palavra pode ter. Fulguração. Escrever e ler um poema são atos perpassados de tantos enigmas, de tantos afloramentos. Uns não gostam, outros não entendem, logo esquecem daquele momento estranho, beirando a inutilidade. Ler e escrever poemas assemelha-se em muito com a parábola do semeador. Sempre se perdem algumas sementes, mas há aquelas que frutificam. São nestas frutificações que devemos nos fixar. São nos instantes em que o poema grudou-se dentro do escritor ou leitor e de lá nunca mais sairá que reside a salvação da essência humana.
O poema serve sempre de suporte, escudo, espada, para as guerras da vida. Tão mais eficiente defender-se com poemas do que com punhos. Pena que muitos desconhecem a força persuasiva da palavra, que prefiram a gratuidade da violência, a superficialidade da força física. Inimigos vencidos com palavras não têm moral para vingança. Aquietam-se. A poesia é amenizadora, transgressora, desafiadora da ordem vigente. Ela revoluciona pelo silêncio, pela surpresa da verdade escondida e de repente revelada. Apesar das mortes constantes que a poesia sofre, sua vida está na capacidade de eternizar-se sobre o mundo para movê-lo diariamente.
* Rubens da Cunha
Ilustração: minha): Daudi Karungi, Land of milk and honey
