II
«Algumas observações sobre a noção de “Língua Portuguesa”»

A questão crucial, do ponto de vista linguístico, é esta: a partir de que momento é que duas variantes linguísticas, historicamente ligadas a uma mesma “língua”, se consideram não já dialectos (de uma mesma “língua”), mas sim “línguas” diferentes? [...] Mas a partir de que momento é que dois sistemas relativamente próximos linguisticamente um do outro deixam de ser dialectos para passar a ser “línguas”? Uma das respostas preferidas da filologia clássica consiste no critério da mútua compreensão. [...] Mas este critério é facilmente falsificável pela divisão hoje em dia convencionalmente e indiscutivelmente aceite das línguas do mundo entre si e nos seus dialectos.
[...] De um modo mais geral, não serão as fronteiras da inteligibilidade, dentro do universo Românico, diferentes das fronteiras da divisão convencional entre línguas? E, inversamente, não é por vezes bem difícil a um falante de Lisboa compreender um falante de S. Miguel, que fala um dialecto apresentando qualidades vocálicas tão diferentes das do português-padrão europeu, que a inteligibilidade mútua pode chegar a ser afectada?»
(continua)
Imagem: Bula do Papa Alexandre III que reconhece o reino de Portugal