Legendas & Etcaetera

Março 25, 2008

Primavera

Arquivado em: Biblioteca — casoual @ 1:30 am

Chegou a Primavera e com ela toda uma hierogamia prometedora de potencialidades fecundantes. E em vez do recurso aos modernos charlatães, por que não invocar Nossa Senhora dos Prazeres, mais conhecida por Nossa Senhora da Goma, ou, pura e simplesmente, participar na festa da Goma?

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Segundo um inquérito paroquial de 1842, publicado na Revista de Guimarães, nº 108, 1998, pp. 555-569 (consultável aqui), no seu ponto 16º, «Igreja: sua grandeza é limitada em proporção do povo existente de maneira que se juntasse tudo a uma missa ou festa certamente não cabia, porque não falando em crianças alistadas andam por oitocentas pessoas; está muito pouco reparada, os anos da sua primitiva fundação ignora-se, por tradição consta, que tivera
princípio no monte sobranceiro à freguesia e igreja de Castelões ao Nascente da mesma, confina hoje desta ao Poente, aí se apelidava Santa Iria de Sobradelo; Sobradelo por estar sobre a dita freguesia, elevada, e sobranceira a Castelões, depois foi mudada para cima junto aos lugares de Vilarinho intitulando-se Santa Mamede de Souto de Sobradelo, onde hoje existe uma capela; daí passou ao lugar da igreja Velha junto ao Morouço intitulando-se S. Tiago de Sobradelo, onde hoje existe uma capela; ultimamente se mudou para o sítio de Souto ponto quase central da freguesia intitulando-se Santa Maria de Sobradelo, e vulgarmente Sobradelo da Goma, que o verdadeiro apelido é Nossa Senhora dos Prazeres, em cujo dia há costume de lhe fazerem os párocos pelo menos uma missa cantada; até ao ponto de S. Tiago de Sobradelo há somente tradição tanto das fundações, como das eras, e daí para o assento, onde hoje existe, consta haver duzentos anos, o que obrigou a intitular-se Santa Maria de Souto de Sobradelo, e fazer aquela mudança de S. Tiago para Souto ou Assento foi haver ali no dito Souto umas servas de Deos tinham suas propriedades que cultivavam e como naquele sítio houvesse aparecido uma senhora em cima de uma pedra quase redonda que ainda hoje se conserva junto ao Adro, prometeram aquelas servas de dar à Senhora Aparecida o seu casal se conseguisse mudar para ali a igreja Matriz; ultimou-se com efeito e de S. Tiago de Sobradelo, que dantes era, principiou a intitular-se Santa Maria de Souto de Sobradelo. Aconteceu por esses tempo vir na Primavera um granizo de saraiva, que esperançava não ficar um gomo das vides com seus cachos, com aquela fé antiga correram os povos da freguesia a fazer preces e súplicas à nova padroeira, conseguiram ser ouvidos daquela Mãe e Protectora, cessa a tormenta ficando ilesos seus frutos, e cantando hinos de louvor principiaram a apelidá-la Nossa Senhora da Goma ou Sobradelo da Goma, de que ainda hoje conserva o nome entre o vulgo [...].»
No entanto, Moisés Espírito Santo, em A Religião Popular Portuguesa, diz-nos coisa bem diversa, contrariando os animais e os monstros da tradição religiosa, do poder do Diabo sobre a alma humana e o castigo resultante da tentação, como é o caso deste baixo-relevo representando um Leão, símbolo de S. Lucas e de Cristo, e que pode ser admirado mais em pormenor aqui.

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Diz-nos, pois, o investigador: «O primeiro domingo depois da Páscoa é consagrado aos encontros de jovens nos montes ou nas matas, onde se entregam a jogos eróticos, em geral inocentes [...] e onde dormem a “primeira sesta”. [...] actualmente a cerimónia primaveril coexiste com a festa católica, mas as motivações juvenis continuam a ser preponderantes. No Gerês, a festa da primeira sesta tem o nome curioso de “festa da Goma” (a seiva, na linguagem comum; o esperma, em gíria). A festa da Goma constitui uma busca frenética de uma companhia amorosa numa frondosa mata de carvalhos em torno de uma capela construída no século XVI em honra da “Goma”. O clero persiste, desde há muito, em querer rebaptizar a capela com o nome de “Nª Srª dos Prazeres” e em chamar à reunião dos jovens a “Festa das Alegrias de Nossa Senhora”, esforço que permanece vão a despeito de quinze séculos de cristianismo.» op. cit., p. 66

Os sublinhados são nossos.

Imagem: 1 – Marion C. Martinez, Madre Querida, Wall hanging – Hard drive computer disc, CD, Circuit boards, daisy wheels, ribbon cable 8″ by 10″ by ½”; 2 – Baixo relevo das ruínas da antiga abadia de Saint-Benoît de Nanteuil-en-Vallée (Charente).

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