Primeiro:
[Nas cartas a Lucílio, Séneca mostra como o homem, mergulhado num turbilhão de eternos perigos, não vê os sinais do desastre; ao contrário da natureza, que com a trovoada anuncia a tempestade, ou o fumo o incêndio, a maldade humana chega sempre mascarada para desabar no imprevisto.]

- Olha, já que falas disso: acordara bem disposto. Ao ouvir as primeiras notícias, a inquietação instalou-se. Lembrei-me, enquanto ia vagueando pelo quarto, do sermão de Bartolomeu Guerreiro, que dizia qualquer coisa assim: “Não posso negar a dúvida causada pelo sentimento e a dor de não encontrar em Lisboa aqueles velhos reis que te fizeram poderosa…”
Engolido o café à pressa, dirigi-me ao posto. Do comando, nada. Saí para a rua. Sorvi o ar fresco, contemplei o céu sereno e, a medo, pensei: “Acabou-se o fardo. Não, a notícia não há-de ser apenas uma ficção.” Assim se confirmou, algumas horas depois.
A alegria invadira-me. Mas que me esperava naquela estação da história? Ainda não me desenganara a terra nem as gentes. E chegou a primeira mensagem: entrávamos de prevenção. E devíamos tomar posições. “Com cinco homens!”, sorri interiormente. E vigiar atentamente o aeródromo.
- Mas porquê? – interrompo.
- Olha, porque esperávamos alguma aeronave ou talvez os “terroristas” estivessem por ali para tomar a pista e atacar algo que dela se aproximasse. Claro, tudo isto eram conjecturas irracionais, porque alguém que se aproximasse nunca iria de avião.
Chegou, então, o Malaquias, do posto de S. Lucas, lembras-te? Fora para dar conhecimento ao Administrador do Concelho do que ele já sabia… mas sabes bem como eram estas coisas… E dizia que uns comunistas se tinham instalado na metrópole, ele nem dizia bem comunistas, brincava com a palavra entre o carteiristas e o comunistas. E o meu contentamento crescia.
À noite, nova mensagem rádio: que nos apresentássemos no comando no dia seguinte para receber instruções… (choro convulsivo).
- Podemos ficar por aqui, hoje.
- Da inquietação e da dúvida passei à alegria. Mas em pouco tempo foi o descalabro, sim. Não oferecer resistência. Dar tudo. Sem negociar. E por fim, fugir… (longo silêncio.)
Recordas-te de quando saímos e, já ao cair da noite, entrámos na primeira aldeia e nos mandaram parar num posto de controlo? Não tinha visto os sinais de paragem feitos pelos da Unita… deram-me uma rajada de tiros por cima do carro… e logo a seguir parámos num outro controlo, à saída dessa povoação. Ao abordarem-me, começaram a dizer que eu ia a fugir e que aquela gaiola de galinhas e coelhos que levava no tejadilho – arranjada à pressa pela tua mãe – eram roubadas. Não me agrediram porque a mão saiu logo do carro com uns maços de cigarros e distribuí-os. Foi então que se acalmaram, mas sempre me iam dizendo que eu já não era chefe nem nada e que me fosse embora, mas que duvidavam muito que no puto me quisessem. Não, não quero mais falar, mas de tudo isto deves lembrar-te.
- É de ti que falamos – riposto. – E o meu padrinho?
- Falei com ele e, claro, aconselhou-me a pôr o dinheiro fora do país, mas isso era uma miragem porque logo cortaram todas as transferências bancárias para o exterior. Como sabes, passado pouco tempo da revolução, logo se começou a falar na saída dos brancos de Angola, foi criada uma organização para o regresso, incluindo um quadro geral de adidos para os funcionários públicos. Perguntaram-me se queria ficar, que manteria o lugar que então ocupava. Eu fui um dos que quis ficar.
- E a tua posição?
- Não era coisa que muito me importunasse. Queria a minha terra independente.
- Não sabia que assim pensavas.
- Nem a ti me atrevia a confessá-lo. Mas ainda quanto à saída, cancelaram-nos até as férias e eu pedi a minha graciosa para vir a Portugal no intuito de pôr a família em segurança. Nem isso me autorizaram. Uma coisa aprendi. Fugir também é humano. Não o sabia. Acabamos?
- Está bem. Se assim o queres. Um abraço.
Segundo:
«A dissimulação é um leve véu tecido de honrosas trevas…», Acetto
Como se explica Ípias, que os antigos sábios
todos se tenham afastado dos negócios públicos?

perguntei, porque também eu calei
a minha voz pública de outrora. Cidade,
perdoa-me a ausência e o rancor,
perdoa que a minha voz agora
não nomeie os teus cais de embarque,
a dor, a miséria e cúpida opressão.
Ainda amo, neste exílio de paz a mesma Paz.
Sábia, não sou. Calei-me porque
as memórias minhas e a voz sozinha
também pertencem ao Todo, em harmonia.
Ainda amo a pátria, feita de lugares, parentes,
dos próximos, e do vento, meu semelhante.
Como se explica Ípias…, Fiama Pais Hasse Brandão
Terceiro:
«Ce n’est plus la présence de dieu
c’est l’absence de dieu
que rassurre l’homme…»
Tiens, Homère
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Imagens: anónimo, Aquiles; John Vassos, Dromophobia