Legendas & Etcaetera

Maio 10, 2008

«Eu não gosto de blogs»

Arquivar em: Ad-mirare, Amanuenses, Blogues, Ler Outros — casoual @ 2:20 am

À consideração de…

João Camilo publicou, em 28 de Novembro de 2004, este apontamento, que transcrevo com a devida vénia.

Eu não gosto de blogs

Eu não gosto de blogs. Acho-os perigosos. Eles ameaçam a reputação dos escritores que publicam livros; põem em perigo o emprego dos jornalistas que nos dão abalizadamente todos os dias lições de moral, de política, de sociologia e de futebol; fazem cair no ridículo os políticos vaidosos e arrogantes que nos mentem e catequizam obsessiva e descaradamente na televisão e na rádio. Em resumo: são um factor de desestabilização permanente para a sociedade em que vivemos e que já nos deu tantas coisas boas.

Até ao surgir dos blogs reinava nas nossas existências uma impunidade quase exemplar e relativamente tranquilizadora. Hoje o risco de nos sentirmos vigiados, ultrapassados, acusados, fotografados, denunciados, desmascarados, injustamente vencidos e humilhados, é constante. Os escritores já foram donos absolutos da escrita, os jornalistas donos da verdade, os políticos donos do país e das instituições. Ainda é assim em grande parte, ao que parece. Mas as coisas estão a mudar. Perigosamente. Cumpre-se a profecia: a democratização da educação deu os seus frutos; e hoje somos todos artistas e escritores, comentadores políticos e desportivos. Hoje qualquer pessoa pode escrever um poema, um romance, um conto, uma crónica de jornal usando de técnicas e um saber que antes só eram acessíveis a uma minoria. E o poder vai finalmente em breve estar ao alcance de todos nós. E não serão o Bush com os seus aviões de lata, o Blair sem vergonha na cara, o Santaninha com os seus olhinhos cansados de coruja que poderão alguma coisa contra a chegada da nova ordem.

Mas estaremos realmente a aceder enfim desta maneira, com muita blindness e pouco insight, à sociedade mais justa e perfeita a que aspiraram, com insuficiente sucesso, os revolucionários do passado? Podemos de facto começar a sonhar sem receio de desilusão com uma sociedade onde reinará a verdade e a justiça? Ou devemos, pelo contrário, temer os efeitos nefastos de uma nova e poderosíssima demagogia? Ou escondem-se a mesma ou outras ditaduras, a mesma ou outra miséria e exploração das classes oprimidas (física e intelectualmente) por detrás destas aparentes promessas de mudança? Eles resistem, os antigos senhores do mundo, os nossos abnegados protectores ancestrais. E pelo que vou vendo e lendo dir-se-ia que têm os dias contados. Mas nunca se sabe e a História e a experiência aconselham prudência.

(No meio destas inquietações perguntei-me: os novos senhores serão tão diferentes dos antigos? Alguma coisa mudou ou está a mudar realmente – ou só mudaram o estilo e a técnica da eterníssima, e no fundo desculpável porque humaníssima, luta pelo poder? Questão a investigar, sem dúvida.)

Qualquer bloguista tem hoje teoricamente tantas oportunidades de envenenar o ar à nossa volta, de lançar descrédito, de construir e destruir reputações, como os cronistas mais populares da imprensa e da rádio, como os comentadores menos escrupulosos e competentes da televisão, como os fabulosos maîtres-à-penser que orientaram e dominaram, do alto da sua condição intelectual (ou política ou económica ou artística) superior, durante tantos séculos, as nossas existências. A situação revela-se preocupante, alguma coisa mudou e está a mudar. As nossas vidas arriscam-se a sofrer modificações catastróficas. Desde o fim do Antigo Regime que não se assistia à possibilidade de tão profunda revolução dos nossos costumes e direitos e obrigações.

Jovens inteligentes das novas gerações entenderam a nova condição muito depressa e ocupam já no imaginário colectivo e na bolsa dos valores mediática lugares de prestígio que noutras circunstâncias lhes teriam levado muito mais tempo a conquistar. Aqueles que mais facilmente souberam beneficiar da nova ordem para se promoverem mutuamente e vir a ser escutados na rádio, lidos nos jornais, eventualmente temidos nas editoras e nos ministérios, não se distinguirão muito, bem feitos os balanços, daqueles que substituíram, ou com quem ainda convivem, nas redacções dos periódicos, das estações de rádio e de televisão, nos gabinetes ministeriais. Posso estar errado, mas é uma opinião que me permite pensar que estes novos «quadros» me parecem menos susceptíveis de pôr em perigo a nossa tranquilidade individual ou social, a calma rotina dos nossos dias, do que inicialmente se anunciava ou previa. É certo que eles usaram inteligentemente na luta por um lugar ao sol de novos métodos e novas técnicas para se promoverem. Mas lá no fundo, passados os primeiros momentos de fulgor, alcançada a fácil e rápida vitória, começaram logo a submeter-se, a ficar com barriga, a armar em vedetas, a falar da sua vida privada como se ela fosse interessante dois metros para além deles. Contentaram-se com o pouco que obtiveram, revelaram-se e vão-se revelando em cada dia que passa tão inofensivos e monótonos e insuportáveis como muitos outros que antes deles ocuparam os lugares cobiçados. E tão pouco capazes de nos surpreendeer ou seduzir ou irritar como esses antepassados a quem sucederam. Uma vez no poleiro, adoptaram os tiques, vaidades balofas e manias ridículas daqueles que venceram ou que ainda não eliminaram na sua subida vertiginosa até ao sucesso. E por isso a sociedade não tem a recear da parte deles, pelo menos por ora, inspiração ou alento para revoluções ou tremores de terra sangrentos. Mais tarde ou mais cedo hão-de ser reconhecidos pelo que são e já eram: poetas medianos, críticos literários sem formação séria, comentadores políticos ou desportivos boémios e superficiais, frequentadores dos bares, discotecas e cafés na moda, diletantes apesar de tão prematuramente terem dado sinais de ambição desmedida e projectos nervosos. Não são esses que eu receio, não é desses que temos a temer a ruína das instituições e dos costumes. Esses são apenas uma espécie de versão «mais culta» ou «mais chique» do Big Brother.

Não, os perigosos são os outros. Os que de facto não querem o poder, o prestígio ou o dinheiro, mas apenas o direito de criticar, denunciar, fazer cair no ridículo ou obrigar a explicar-se em público, pelas suas decisões ou palavras, os detentores tradicionais e modernos do poder e do prestígio. Aqueles a quem não envaidece, aparentemente, pensar e imaginar e escrever melhor do que os escritores publicados e conhecidos. Aqueles que repetidamente dão mostras de uma criatividade e imaginação que tornam pálidas as realizações de gente com nome, direito a citações permanentes na imprensa, bons salários. Aqueles a quem não repugna protestar e ridicularizar as decisões e comportamentos alheios. Toda essa alegre gente, mais ou menos anónima, demasiado atenta e excessivamente viva, parecer ter como única ambição desconstruir, desmontar até aos limites do pensável os mecanismos da ordem tão bem organizada que nos tem regido e nos vai regendo e nos tem permitido ser tão felizes. Sem pudor nem timidez, sem ambição política ou intelectual ou artística assumida, obrigam-nos a reflectir, incitam-nos a duvidar e a rever o que acreditávamos ou pensávamos que sabíamos. E nós interrogamo-nos, ficamos quase em pânico às vezes, pomos em causa bruscamente, à hora da cerveja ou do pequeno-almoço, muitas ideias e hábitos antigos, que até nos pareciam «naturais» e talvez inofensivos. E obrigam-nos a isso todos os dias. E por causa deles nunca sabemos realmente o que nos reserva o dia de amanhã, se o amor de facto existe, se os impostos serão um dia objecto de reforma a nosso favor, se o livro incensado por alguns eternos aspirantes a críticos literários de jornal vale alguma coisa. Não, não queremos deixar-nos enganar, não queremos que nos tomem por parvos. Quem sabe, nestas circunstâncias, e com tantos pontos de vista e opiniões a circular por aí, onde vamos acabar e que vida vai ser a dos nossos filhos e netos? A incerteza sobre o futuro instalou-se, por vezes temos a impressão de ter voltado à época gloriosa, excitante e terrível, das grandes ameaças de catástrofe (revolução francesa, revolução russa, revolução cubana, che guevara, maio de 68, revolução chilena, etc., etc.). Pode haver quem veja nestes sinais o anúncio claro de um futuro mais brilhante para a humanidade. Mas eu acho tudo isto muito perigoso e comecei a prestar uma atenção preocupada aos cronistas e escribas sem estatuto claro dos mil blogs cujo projecto secreto parece ser introduzir nas nossas existências, com nítida, juvenil e subversiva intenção de as perturbar, informações, uma ciência e pontos de vista até aqui mais ou menos recalcados ou deixados cautelosamente na sombra. Johaan Gutenberg ao lado disto que fez? Nada.

Leitor, se me leres, não te peço que acredites em tudo o que te digo. Mas olha à tua volta, vê com os teus olhos, toma consciência do que se está a passar. Não desvalorizes levianamente as modificações que já anotaste no comportamento dos teus pais, ou filhos, ou parceiro/a amoroso/a. Se descobrires sinais, sintomas da mudança, reflecte duas vezes antes de ires para o emprego ou ao cinema. E não tentes contradizer-me pedindo-me para te explicar por que razão, se as coisas são como eu anuncio, os políticos continuam a mentir-nos impunemente, os primeiros ministros a governar abusiva e incompetentemente o que nos resta de país, os escritores banais a ser homenageados e premiados, os árbitros de futebol a prejudicar o Sporting, o senhor Presidente da República a manter à beira do abismo uma serenidade muito british e muito democrática. Tudo isso ou pelo menos uma parte disso há-de mudar um dia e os blogues, tenho a certeza, em vez de ameaçarem irresponsavelmente a nossa paz e a rotina dos nossos dias, hão-se vir a ser os grandes, os heróicos responsáveis por essa transformação dos costumes. Basta esperar um pouco, dar tempo ao tempo. Eu esperarei (até morrer, se necessário).

Imagem: Toulouse Lautrec

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